Treino para hipertensos: considerações importantes para a prática e a prescrição.

Apesar do grande benefício causado pelo exercício para indivíduos com hipertensão, sempre existe muita cautela e cuidado ao se recomendar a prática de atividade física regular. Aqui vamos discutir os aspectos que norteiam o treino para hipertensos.

Mas afinal de contas pessoas com hipertensão podem praticar atividade física normalmente?

A hipertensão tem se tornado um dos maiores problemas de saúde pública dos últimos anos, a busca de terapias eficazes mobiliza grande atenção por parte das instituições de pesquisa.

Não só podem, como devem. Como a hipertensão se caracteriza por pressões elevadas do fluxo sanguíneo nas artérias, os tratamentos buscam diminuir essa alta pressão com a finalidade de evitar complicações decorrentes, como por exemplo: cardiopatias (doenças do coração) e acidentes vasculares. Quando a aferição é feita dois valores são observados um correspondente a pressão sistólica e outro a pressão diastólica, quando um deles, ou ambos estão acima do valor limítrofe por períodos sustentados de tempo temos a caracterização do quadro hipertensão.

Talvez a maior preocupação a respeito da prática de exercício por hipertensos é o aumento da pressão que ocorre durante a atividade física de maneira proporcional a intensidade, contudo, na grande maioria dos casos essas alterações não preocupam, a não ser em casos de cardiopatas muito graves. Para o estabelecimento do risco individual uma rotina de exames junto ao cardiologista irá oferecer informações sobre os parâmetros cardiovasculares alterados e se eles serão limitantes para a prática, dessa forma, recomenda-se uma triagem médica prévia antes da pratica para aumentar a segurança e o respaldo do profissional que irá prescrever e estruturar o treinamento, ou, até mesmo para o próprio paciente poder nortear algumas de suas práticas.

Para a grande maioria dos hipertensos a prática de exercício é possível e deve ser realizado, pois causa diminuição da pressão arterial em repouso. Alguns estudos mostraram que a melhora obtida com o exercício é igual ou superior ao do tratamento com remédios (Pescatello et al., 2015). O principal mecanismo do porque isso acontece ainda não é completamente conhecido, mas, acredita-se que a vaso dilatação e a hipotensão pós exercício estejam envolvidos (Polegato e Paiva, 2018).

Sabendo que o hipertenso pode e deve praticar atividade física vamos definir o que pode ser feito.

Qual exercício? Quanto tempo? Qual a intensidade? Quantas vezes por semana? Para agrupar essas informações usaremos uma sigla que tem sido utilizada para a prescrição precisa de exercício para diferentes populações, chamada: FITT.

Onde:

F – Frequência;

I – Intensidade;

T – Tipo;

T – Tempo das sessões.

Vale lembrar que essas recomendações são baseadas em grandes instituições e que possuem muito respeito e prestígio na área médica e científica como o Joint National Commission (JNC) American Heart Association (AHA)/American College of Cardiology 2013 Lifestyle Work Group, American College of Sports Medicine (ACSM), European Society of Hypertension e a European Society of Cardiology (ESH/ESC),  Canadian Hypertension Education Program (CHEP).

Para facilitar a divisão iremos começar pelo tipo, pois, as outras variáveis são específicas para cada tipo.

O exercícios resistido (musculação) tem se mostrado eficiente para promover reduções na pressão arterial em repouso.

Tipo: O tipo de exercício com mais evidencias é o treinamento aeróbico, contudo, vários estudos têm mostrado que o treinamento resistido (musculação) pode promover resultados similares na diminuição da pressão arterial. A maioria das instituições recomenda o treinamento aeróbico e algumas também recomendam o treinamento resistido como parte do programa. Pensando nas diferentes adaptações de cada treino e seu valor para a qualidade de vida parece ser válido a combinação entre ambos.

Frequência: A maioria das instituições recomenda o exercício aeróbico de 3 a mais vezes por semana e se possível todo dia, pois, nos dias de prática a pressão arterial em repouso é diminuída. Para o resistido, 2-3 vezes na semana é a recomendação mais comum.

Intensidade: Talvez esse seja o tema com mais controversa empírica, pois, é natural se recomendar intensidades moderadas e a maior parte das recomendações se baseia em intensidades moderadas, contudo, nas últimas décadas alguns trabalhos da literatura científica têm mostrado que as diminuições na pressão acontecem de maneira mais pronunciada em intensidades mais elevadas, utilizando protocolos como o HIIT (treinamento intervalo de alta intensidade). O grande ponto a se debater aqui é a relação custo benefício, caso o paciente avaliado possua um risco elevado e baixo condicionamento talvez não seja interessante em um primeiro momento utilizar intensidades altas. Isso não significa que hipertensos não possam fazer treinamentos intensos, é necessária uma avaliação individual, mas na maioria dos casos deve ser possível. Dessa maneira é necessário que mais evidencias sejam oferecidas para a recomendação de intensidades mais elevadas. Essa área é muito promissora e possivelmente guarda a possibilidade de resultados ainda melhores, contudo, com determinado conservadorismo e cautela, que muitas vezes se justificam, é melhor esperar antes de cravar a possibilidade e os resultados. Para o treinamento resistido a intensidade é dada em um percentual da carga que o paciente consegue levantar uma vez (1RM) ou em repetições máximas (número máximo de repetições para uma determinada carga). Intensidades de 70-80% de 1RM ou 8-12 repetições máximas por exercício.

O exercício aeróbico é prática mais pesquisada a recomendada para hipertensos além de ser de fácil acesso traz excelentes resultados.

Tempo: A maioria das recomendações se situam entre 30-60 minutos, contudo, alguns estudos que pegaram a duração total (por exemplo 30 minutos) e dividira em 3 vezes diárias de 10 minutos também mostraram melhora, ou seja, para iniciantes ou visando melhorar a aderência esse tipo de estratégia pode ser implementado. Para o treinamento resistido o tempo depende do número de exercícios, no qual a recomendação gira em torno de 8-10 exercícios, com 3 séries por exercício.

Portanto seguindo as recomendações pautadas na literatura cientifica, o exercício pode ser executado, tanto musculação quanto treinamento aeróbico e trará resultados excelentes melhorando o prognostico e progressão da doença, além de diminuir a mortalidade e complicações em hipertensos.

Referências:

PESCATELLO, Linda S. et al. Exercise for hypertension: a prescription update integrating existing recommendations with emerging research. Current hypertension reports, v. 17, n. 11, p. 87, 2015.

POLEGATO, Bertha F.; DE PAIVA, Sergio AR. Hypertension and Exercise: A Search for Mechanisms. Arquivos brasileiros de cardiologia, v. 111, n. 2, p. 180-181, 2018.