TREINO PARA DIABÉTICOS: Considerações importantes para a prática e a prescrição.

Assim como em outras doenças o treino para diabéticos necessita de considerações especiais que são importanes para aumentar a eficácia e a segurança da prática de atividade física para essa população.

O diabetes é caracterizada por aumentos sustentados na glicemia sanguínea o que pode acarretar em diversas complicações, dentre elas, as mais comuns e com maior potencial prejudicial estão as alterações vasculares e metabólicas.

As concentrações aumentadas de glicemia podem ter diferentes causas e por isso o diabetes é uma patologia que pode se dividir em algumas categorias: diabetes mellitus tipo I, diabetes mellitus tipo II e diabetes gestacional. Sendo dessas, a diabetes tipo II a mais comum, já o diabetes gestacional atinge algumas mulheres durante o período da gestação, enquanto o tipo I geralmente apresenta causa autoimune e destruição das células produtoras de insulina.  Existem outras causas possíveis que podem desencadear o diabetes, contudo, esse tema não será discutido aqui.

 

O número de pessoas com diabetes vem crescendo alarmantemente durante as últimas décadas, principalmente, diabéticos do tipo II.

O exercício é importante como terapia em todos os tipos de diabetes

funcionamento de algum desses componentes. Para termos uma noção melhor iremos explicar superficialmente as diferenças entre os tipos, pois, algumas considerações são específicas para cada um.

O primeiro passo para entender como o exercício pode ajudar o diabético é entender como funciona a relação entre insulina e glicose. De maneira muito básica, após uma refeição rica em carboidratos os níveis de glicose aumentam, contudo, como níveis exagerados de glicose por longos períodos de tempo podem ser nocivos e também pela importância energética da glicose para tecidos como o nervoso, ela necessita ser mobilizada e entrar nas células para ser utilizada.

Contudo a glicose não consegue entrar na célula sozinha e para isso precisa de “canais de passagem”, os transportadores de glicose que não se encontram em quantidades suficientes para absorver toda glicose. Aqui, entra a ação da insulina. No pâncreas, um grupo de células chamadas células betas atua como um “sensor” percebendo as concentrações de glicose. Essa capacidade de identificação das concentrações de glicose faz com que haja a liberação do hormônio insulina. Após ser liberada a insulina interage com um receptor na membrana das células. Essa interação faz com que uma série de modificações em cascata o ocorram até que os transportadores de glicose, os canais de passagem para a glicose (GLUT-4) se insiram na membrana. Se fizermos uma analogia, podemos pensar na membrana como uma parede e como os transportadores como canos. Após inserir os canos na parede a glicose pode passar através desses tubos e entrar na célula.

Assim seria o funcionamento normal de parte do metabolismo da glicose.

Tipos de diabetes:

O diabetes tipo I se caracteriza por uma doença autoimune onde ocorre destruição das células produtoras de insulina no pâncreas. Como não há produção de insulina esses pacientes precisam de uma fonte de insulina exógena e não conseguem absorver a glicose da corrente sanguínea.

O diabetes tipo II se caracteriza por uma doença onde as células não são capazes de captar a glicose da maneira correta mesmo na presença de insulina, isso faz com que mais insulina seja liberada por compensação e mesmo assim os níveis de glicose continuam elevados. Normalmente não é necessária insulina exógena, contudo, em alguns casos a sobrecarga sustentada pode levar as células beta pancreáticas a falência.

O diabetes gestacional acomete algumas mulheres durante a gestação devido a alterações metabólicas e hormonais durante o período, contudo, fatores como o sedentarismo e ganho de peso gestacional elevado podem contribuir para um aumento no risco de desenvolvimento desta alteração.

Exercício no diabetes:

Para todos os tipos de diabetes o exercício ajuda no controle da glicemia.

Durante a atividade física o aumento da necessidade energética do músculo faz com que ocorra aumento na captação da glicose, além disso, ocorre depleção dos estoques de energia celular isso faz com que durante o repouso ocorra aumento na captação de glicose para que seja possível reestabelecer os estoques de energia. Para que isso seja possível ocorre melhora na sensibilidade a insulina, possibilitando que a célula responda melhor ao hormônio, aumentando assim a capacidade de captar glicose após o exercício, efeito que pode ser sustentado de 24-48 horas, dependendo da intensidade e volume do exercício.

diminuindo os riscos e complicações subsequentes.

Como o diabetes é uma doença caracterizada por distúrbios no metabolismo da glicose e da ação ou secreção da insulina os tratamentos para os diversos tipos envolvem modificações no

O exercício surge como componente importante na ajuda ao controle dos níveis de glicemia.

Como esse efeito é dependente da prática a recomendação é a prática de exercícios regulares, se possível diariamente para que essa melhora na captação da glicose seja sustentada.

Para cada tipo de diabetes existem algumas considerações diferentes, portanto é necessário aborda-las de maneira separada.

Vamos nos basear em um estudo publicada por uma das maiores instituições na área do tratamento de diabetes a American Diabetes Association, pois, é sempre importante obter as informações com respaldo em boas referências.

Diabetes tipo II

Recomenda-se a prática regular sendo tanto exercício resistido (musculação), quanto exercícios aeróbicos, sendo ambos efetivos na melhora do metabolismo da glicose.

A intensidade irá depender do nível de condicionamento e também dos níveis de glicemia antes da prática. Como a hiperglicemia (excesso de glicose) e a hipoglicemia (glicose baixa) são mais raros nesse tipo de diabetes, a intensidade pode geralmente obedecer a capacidade individual. Para a musculação, 3-5 vezes por semana com 8-10 exercícios por sessão para os principais grupos musculares com intensidades de 70-80% de 1 RM (carga máxima que permite apenas uma repetição) o que gira em torno de 6-12 repetições máximas por série do exercício.

Para o aeróbico tanto treinos como HIIT, como aeróbico continuo podem sem empregados. A duração depende do tipo escolhido, para o HIIT geralmente se usam períodos mais curtos ( 15 a 30 minutos), para o aeróbico continuo geralmente se usam períodos mais longos (30-60 minutos), contudo, isso não é regra e várias metodologias podem ser utilizadas, desde que, bem monitoradas controlando as variáveis envolvidas e respeitando o nível de condicionamento individual.

Diabetes tipo I

Assim como no diabetes tipo II recomenda-se a prática regular nos mesmos moldes, contudo, aqui deve-se a tentar a um fator importante, pois, devido a necessidade de insulina exógena, episódios de hiperglicemia e hipoglicemia podem ser mais recorrentes, sendo assim, os monitoramentos dos níveis de glicose devem fazer parte da rotina pré e após os exercícios a fim de evitar complicações.

Como os exercícios melhora a captação de glicose no período de repouso muitas vezes existe necessidade de ajuste nas doses de insulina. Para cada faixa de nível de glicose pré atividade física existem recomendações diferentes que serão abordadas na tabela 1. Na grande maioria das vezes, para não dizer em sua totalidade os pacientes possuem medidores de glicose, facilitando assim, a checagem pré.

É importante ter fontes de carboidrato a disposição caso os níveis de glicose estejam muito baixos.

Diabetes gestacional

Nessa condição as recomendações podem mudar de acordo com as características da gestação, contudo o exercício aeróbico moderado (30 a 60 minutos) diariamente é efetivo e seguro. Ainda assim, existem algumas considerações específicas que devem ser feitas durante o exercício durante a gravidez e esse tema será abordado em outro post tratando apenas do exercício para grávidas.

A prática regular de atividade física pode oferecer benefícios maiores do que o tratamento farmacológico.

Observações gerais

Em todos os tipos deve-se atentar para as condições ambientes como humidade e temperatura. Manter a hidratação da gestante adequada além do uso de roupas leves e que não causem compressão ou alguma lesão por pressão, pois, pacientes diabéticos possuem alteração no processo de cicatrização, além de neuropatias que podem causar dor em alguns locais.

O exercício é uma terapia efetiva para pacientes com todos os tipos de diabetes melhorando o controle glicêmico a saúde cardiovascular e metabólica, as quais são as principais responsáveis pelas complicações mais graves do diabete.

Conclusão

Como em todas as condições patológicas existem alterações que estão fora da normalidade algumas considerações devem nortear a prescrição e portanto, a prática deve se basear nas recomendações da literatura científica e também no devidos cuidados com os praticantes diabéticos, assim é possível proporcionar melhora a saúde e minimizar os riscos da doença.

Tabela 1 – Ações tomadas baseadas nas concentrações de glicose pré-exercício

Níveis de glicemia pré atividade física Ingestão de carboidratos ou outras ações
<90 mg/dL (<5.0 mmol/L) Ingerir 15-30g de carboidratos de ação rápida antes de iniciar a sessão de exercício dependendo do tamanho do indivíduo e do tipo de exercício; algumas atividades que são de breve duração (menos de 30 minutos) ou a intensidades muito altas (treino com pesos ou treino intervalado) podem não necessitar de ingestão de adicional de carboidratos.

 

Para atividades moderadas e de longa duração consumir 0,5-1.0g de carboidrato por kg de peso por hora de atividade.

 

90–150 mg/dL (5.0–8.3 mmol/L) Começar consumindo carboidratos no começo da maioria dos exercícios (0,5-1.0g por kg de massa corporal) dependendo do tipo de exercício e da quantidade de insulina ativa (paciente com diabetes tipo I).

 

150–250 mg/dL (8.3–13.9 mmol/L) Iniciar o exercício e retardar o consumo de carboidratos até que a glicose esteja <150 mg/dL (<8.3 mmol/L).

 

250–350 mg/dL (13.9–19.4 mmol/L) Realizar teste para concentração de cetonas. Não realizar nenhum exercício se quantidades moderadas ou grandes de cetonas estiverem presente.

 

Iniciar exercício em intensidades baixas ou moderadas. O exercício intenso deve ser adiado até que os níveis de glicose estejam abaixo de 150 mg/dL, porque o exercício intenso pode exacerbar a hiperglicemia.

≥350 mg/dL (≥19.4 mmol/L) Realizar teste para concentração de cetonas. Não realizar nenhum exercício se quantidades moderadas ou grandes de cetonas estiverem presente.

 

Se o teste para a presença de cetonas der negativo considerar correção da insulina (Ex: 50%) antes do exercício, dependendo do status ativo de insulina.

 

Iniciar exercício em intensidades baixas ou moderadas. O exercício intenso deve ser adiado até que os níveis de glicose estejam abaixo de 150 mg/dL, porque o exercício intenso pode exacerbar a hiperglicemia.

 

Referência:

COLBERG, Sheri R. et al. Physical activity/exercise and diabetes: a position statement of the American Diabetes Association. Diabetes care, v. 39, n. 11, p. 2065-2079, 2016.