TREINO PARA CRIANÇAS: Considerações importantes para a prática e a prescrição.

Existem várias dúvidas comuns quando se discute o treino para crianças, dentre elas a segurança, possível papel no retardo do crescimento, risco de lesão e quais os possíveis benefícios.

Nesse post discutiremos as dúvidas mais comuns utilizando a literatura científica como fonte de informações.

Sempre existem muitas dúvidas e catelas quanto a segurança do treino cm peso para crianças.

Durante muito tempo se acreditou que o treinamento resistido (musculação) pudesse atrapalhar o crescimento dos ossos longos devido à sobrecarga colocada no aparelho esquelético, contudo, os estudos não mostraram nenhum prejuízo no crescimento em crianças praticantes do treinamento resistido quando comparado a não praticantes (FAIGENBAUM e al., 2009). As evidencias apontam na verdade ao sentido oposto, pois, crianças praticantes deste tipo de treinamento apresentam melhor densidade mineral óssea, assim como observamos em adultos.

Devido a característica do treinamento, que envolve manipulação de pesos, muito se especula a respeito do risco de acidentes sendo assim uma atividade não recomendada para crianças. O que existe na verdade são casos isolados de acidentes envolvendo crianças sem supervisão, porém, esse tipo de acidente não supervisionado acontece em muitas outras situações cotidianas que não envolvam necessariamente manipulação de cargas.

Outro ponto importante é o risco de lesão, pois, existe uma crença popular de que por não possuir o aparelho musculo-esquelético completamente formado as crianças não devem mobilizar grandes cargas a fim de evitar lesões. O fato curioso é que o treinamento resistido parece ajudar na prevenção de lesões que são observadas durante a prática de outros esportes (Zwolski et a., 2017). Levantamentos em 2005 e 2006 mostraram que a taxa de lesão por tempo de exposição (tempo de prática) em crianças praticantes de musculação é muito menor quando comparada a esportes como: futebol, basquete e vôlei (FAIGENBAUM e al., 2009).

Dessa maneira a grande maioria dos contrapontos que impedem a prática de musculação para crianças são facilmente refutados se o programa for bem desenhado e tiver a supervisão correta.

Os benefícios do treinamento resistido para crianças se sobrepõe (em muito) aos possíveis riscos.

O treinamento com pesos não só é seguro como trás inúmeros benefícios para as crianças que o praticam.

O aumento da força muscular, melhora da coordenação, prevenção de lesões oriundas de outras práticas esportivas, aumento da densidade mineral óssea, ajuda no controle de peso e melhoras metabólicas podem contribuir tanto para a saúde quando para o desempenho esportivo das crianças (MYERS, BEAM, FAKHOURY, 2017; FAIGENBAUM e al., 2009; COLLINS et a., 2018).

Uma consideração importante está ao olhar especificamente para crianças obesas, pois, além de auxiliar no controle de peso pode haver maior satisfação na prática deste tipo de atividade quando comparado a atividades aeróbicas, pois, o desempenho neste tipo de atividade tende a ser reduzido em atividades aeróbicas quando comparado a crianças de peso normal podendo levar a um sentimento de inferioridade diminuindo a participação nesse tipo de atividade. Contudo, devido a maior massa corporal crianças obesas tendem a apresentar maior força o que pode contribuir para um sentimento de auto-eficácia, aumentando incentivo a prática

O treinamento com pesos pode ser uma excelente opção apra crianças acima do peso.

de atividades envolvendo mobilização de carga.

Para que os benefícios sejam atingidos e os riscos minimizados o programa deve ser bem estruturado e para isso algumas considerações são importantes. Assim como em outras postagens utilizaremos como base a sigla FITVP.

F – Frequência

O treinamento deve começar com práticas 2 a 3 vezes na semana e progredir para mais dias à medida que o condicionamento e as habilidades motoras aumentem.

I – Intensidade

Intensidades de moderada a alta (50 a 85 e até mesmo 90% de 1RM) são bem toleradas e seguras desde que a técnica de execução dos exercícios seja adequada. A progressão em intensidade deve respeitar as capacidades individuais sempre preservando a boa execução.

T – Tipo

Os tipos de exercícios devem ser tanto exercícios multiarticulares (agachamentos, supino, levantamento terra) e monoarticulares (rosca direta, tríceps na polia, elevação lateral) visando atingir a maior quantidade de grupos musculares aumentaando a capacidade coordenativa e motora da criança. Pode-se questionar a respeito da utilidade de exercícios monoarticulares nessa população, contudo, além de ativação muscular específica a inserção deste tipo de exercício é possível aumentar a variedade de exercícios e deixar o programa mais atrativo.

V – Volume

O volume deve progredir de acordo com a capacidade da criança em realizar trabalho muscular, como no treinamento resistido o volume não diz respeito ao tempo gasto nas sessões de e sim ao produto de carga x séries x repetições aumentos gradativos em algum desses componentes causará aumento no volume de treino.

P – Progressão

A progressão deve ser realizada tanto em carga, quanto número de séries ou repetições (volume) a medida que a criança esteja apta como uma sequência natural para manter o nível de esforço dentro do tolerável e o suficiente para proporcionar um estímulo eficaz aos grupos musculares.

Portanto os devidos cuidados e considerações o treinamento resistido para crianças é seguro, traz inúmeros benefícios e deve ser encorajado. Esse posicionamento é encorajado por instituições como o  National Strenght and Condicioning Association (NSCA).

 

Referência:

MYERS, Allison M.; BEAM, Nicholas W.; FAKHOURY, Joseph D. Resistance training for children and adolescents. Translational pediatrics, v. 6, n. 3, p. 137, 2017.

COLLINS, Helen et al. The effect of resistance training interventions on weight status in youth: a meta-analysis. Sports medicine-open, v. 4, n. 1, p. 41, 2018.

ZWOLSKI, Christin; QUATMAN-YATES, Catherine; PATERNO, Mark V. Resistance training in youth: laying the foundation for injury prevention and physical literacy. Sports health, v. 9, n. 5, p. 436-443, 2017.

FAIGENBAUM, Avery D. et al. Youth resistance training: updated position statement paper from the national strength and conditioning association. The Journal of Strength & Conditioning Research, v. 23, p. S60-S79, 2009.