Polêmicas, conceitos e considerações a respeito da proteína da soja

Algumas especulações são feitas a respeito do efeito estrogênico do grão e da proteína da soja. Essas considerações se baseiam na sua composição, pois, seu conteúdo de isoflavonas e consequente efeito estrogênico poderia prejudicar o ganho de massa magra (hipertrofia) decorrente do treino ou gerar colaterais como ginecomastia, retenção hídrica, ganho de gordura etc.

As isoflavonas da soja (grupos de compostos naturais pertencentes a classe dos flavonoides), entre elas: daidzeina e genisteína tem a capacidade de se ligar ao receptor estrogênico  e ativar a sua cascata de sinalização promovendo alterações na atividade celular, em tese, assim como os outros compostos que se ligam a esse receptor, neste caso, os estrógenos. Vendo as imagem a esquerda  (isoflavonas)  e abaixo a direita (estrógenos) podemos notar similaridade estrutural entre diferentes ligantes do receptor, o que possibilita que as isoflavonas possam ativa-lo (por isso são conhecidas como fitoestrógenos), contudo, deve-se ressaltar que a atividade é muito mais baixa que a do estradiol-17-beta, um forte ligante.

Estudos em modelo animal (através da alimentação de camundongos com ração rica em isoflavonas) e in vitro mostram que as células e os animais quando expostos a altas quantidades de isoflavonas apresentam diminuição da quantidade de testosterona e do número de receptores androgênicos, fato este que poderia ser considerado prejudicial, pois, a ação anabólica da testosterona junto ao seu receptor já é bem conhecida. Contudo, devemos sempre ter algumas coisas em mente

ao tentar transportar estudos em modelo animal e em células isoladas para humanos e principalmente em condições metabólicas diferentes como por exemplo a de um praticante de atividade física, mais especificamente de alguém que busca hipertrofia muscular e provavelmente está engajado em um programa de treinamento com pesos.

Em uma perspectiva prática a melhor saída é comparar grupos de indivíduos que façam ingestão de soja ou de sua proteína e grupos alimentados com outras fontes como whey protein, leite, caseína que já são bem

consolidadas para promover ganhos, além de claro, um grupo placebo. Oferecer somente um alimento rico em proteínas e compara-lo com um controle neutro vai obviamente mostrar superioridade para a condição de proteínas aumentadas. Como nosso alvo são praticantes de treinamento resistido, os participantes do estudo deveriam também praticar esta modalidade.

Assim poderíamos saber se as isoflavonas contidas na soja e em sua proteína podem atrapalhar os ganhos do treinamento. Se tivéssemos medidas de testosterona, estrogênio e outros marcadores importantes da sinalização destes dois hormônios poderíamos relacionar se o efeito prejudicial ocorre por conta do aumento de um e diminuição de outro.

E é exatamente isso que o estudo de Mobley e colaboradores (2017) fez, submetendo os participantes a um período de treinamento de 12 semanas, alimentando um grupo com proteína da soja e outro com whey protein e um grupo controle. Os pesquisadores mediram a quantidade de daidzeina e genisteina (os compostos que tem afinidade pelo receptor estrogênico) e apenas o suplemento de soja continha quantidades significativas. Como resultado não foram observadas diferenças entre os grupos para composição corporal (ganho de massa magra e quantidade de gordura) Diga-se de passagem os métodos utilizados para quantificar a hipertrofia e o ganho de gordura foram dos mais precisos: através de biópsias e técnicas de coloração (você pode ver algumas imagens acessando o estudo). Ambos os grupos suplementados com proteína tiveram mais ganhos em relação ao grupo controle.

O mesmo grupo de pesquisadores (Haun et al., 2018) em uma publicação posterior, na qual o mesmo estudo foi utilizado, ou seja, o mesmo protocolo de treino e suplementação citados acima, contudo, algumas variáveis analisadas foram diferentes. Entre elas: testosterona, estrogênio e a expressão de proteínas nas células musculares e adiposas e novamente não foram observadas diferenças significativas para a maioria dos parâmetros analisados, contudo a testosterona basal aumentou de maneira significativa no grupo que consumiu whey protein.

Mas, calma, antes de crucificar a proteína da soja vamos deixar algumas coisas claras: esse aumento de testosterona NÃO teve relação com a hipertrofia, ou seja, não é porque a testosterona aumentou que os ganhos foram maiores.
Então, porque a testosterona aumentou? Não é possível afirmar, mas pode ser por conta do aumento de IGF-1 normalmente ocasionado pelo whey protein, o qual já foi mostrado em outros estudos, contudo, nessa ocasião o IGF-1 não foi medido, então, não podemos estabelecer essa relação direta.

Como balanço final os resultados de ambos os estudos mostram o que a literatura vem confirmando a algum tempo:
Quando comparamos uma ingestão aumentada de proteínas de mesma magnitude (ex: 2g por kg) e ambas com alto valor biológico os ganhos tendem a ser similares para indivíduos envolvidos no treinamento resistido.

Obviamente que como são diferentes em sua composição (uma pode ter mais de alguns aminoácidos que outras) elas podem causar alguns efeitos metabólicos diferentes, mas, no bruto o efeito vai ser similar e isso é o que vale para agora (atual e passível de mudança, assim como tudo na ciência).

Concluindo: De maneira geral a ingestão de soja e de sua proteína pode ser utilizada para aumentar o consumo proteico diário, se caracterizando como uma boa opção para complementar a alimentação de pessoas envolvidas no treinamento resistido, assim como as outras fontes de proteína, talvez não deva ser usada como a única fonte, mas pode compor sem dúvidas a alimentação de alguém que busca melhora na composição corporal. Os efeitos adversos muitas vezes citados são muito improváveis de acontecerem.

Link puxando efeitos positivios das isoflavonas;

Link puxando ação da testosterona no metabolismo de homens e mulheres.

Abaixo as referências e o convite a leitura de alguns estudos que embasaram e trazem ainda mais considerações acerca do tema:

HAUN, Cody T. et al. Soy protein supplementation is not androgenic or estrogenic in college-aged men when combined with resistance exercise training. Scientific reports, v. 8, n. 1, p. 11151, 2018.

MOBLEY, C. Brooks et al. Effects of whey, soy or leucine supplementation with 12 weeks of resistance training on strength, body composition, and skeletal muscle and adipose tissue histological attributes in college-aged males. Nutrients, v. 9, n. 9, p. 972, 2017.

CÉSAR, Isabela da Costa et al. Determination of daidzein, genistein and glycitein in isoflavone capsules by thin layer chromatography (TLC) and high performance liquid chromatography (HPLC). Revista Brasileira de Farmacognosia, v. 17, n. 4, p. 616-625, 2007.

HALBE, Hans Wolfgang et al. Fitoestrógenos e osso.