ÓLEO DE COCO É SAUDÁVEL? ENTENDA.

O consumo e a popularidade do óleo de coco aumentaram significativamente nos últimos anos, principalmente por conta de um grande lobby feito por alguns indivíduos alegando diversos benefícios para a saúde.

A recomendação é bastante simples: substituir grande parte das fontes de gordura por óleo de coco. Uma das justificativas é o aumento das doenças cardiovasculares que cursaram com o aumento no consumo de óleos de origem vegetal, como os de soja e canola popularmente usados na culinária cotidiana.

Diversos benefícios foram atribuidos ao consumo de óleo de coco, mas, existe um benefício tão grande assim?

Sem nenhum tipo de crítica a direcionada a indústria evolvida no marketing desse tipo de produto realiza um ótimo papel, utilizando embalagens com cores que fazem alusão a uma alimentação saudável o que ajuda a enfatizar os benefícios para o consumidor.

No que as empresas se propõe a fazer, nada de errado, estão realizando o que deveriam com  o seu produto.

A maior parte do lobby e alegações não é feito pelos executivos, logo, as nossas considerações e críticas não devem ser direcionadas a “indústria do mal” e sim a pessoas que divulgam informações enviesadas e com base muito fraca. Talvez, quem divulga essas informações realmente acredita no que diz, contudo, esses assuntos não dizem respeito ao debate de crenças e sim, ciência.

Por conta dos diferentes nichos de atuação é difícil para quem não estuda o tema a fundo saber discernir entre o que realmente deve ser considerado e o que não deve.  Por isso vamos esclarecer esse tema de maneira consciente.

Mas, afinal de contas, o que é o óleo de coco e quais benefícios a saúde? Qual seria a sua utilidade em uma alimentação bem estruturada?

Vamos analisar um artigo da Oxford Academic em uma revista muito conceituada no que diz respeito a nutrição chamada Nutrition Reviews.

A base

O primeiro ponto é entendermos o que são as gorduras e ácidos e graxos e como as classificamos, para podermos analisar as propriedades do óleo de coco através de sua composição.

Gorduras e ácidos graxos

Dentro das fontes alimentares de gordura temos triglicerídeos que são moléculas compostas por glicerol e ácidos graxos.

Estrutura dos ácidos graxos saturados e insaturados.

Existem diversos ácidos graxos dentro das fontes alimentares de gordura os quais determinam as diversas características e seus efeitos no organismo. Entre elas o ponto de fumaça, estado em temperatura ambiente, estabilidade para o uso em frituras, incorporação nas membranas das células, utilização como substrato energético e seus efeitos para a saúde.

O óleo de coco oferece quase em sua totalidade (92%), gorduras saturadas, ou seja, sem ligações duplas.

Além do grau de instauração o tamanho da cadeia de carbonos contidas nos ácidos graxos é um fator muito importante, pois altera o seu metabolismo dentro do corpo.

Podemos classificar as cadeias carbônicas em: curta, média e longa. A grande maioria das gorduras ingeridas contém ou ácidos graxos de cadeia média ou cadeia longa.

Ácidos graxos de cadeia média apresentam um metabolismo diferente de ácidos graxos de cadeia longa. Comparado aos de cadeia longa, os ácidos graxos de cadeia média apresentam maior solubilidade e são absorvidos pelo sistema portal para o fígado, e não através dos quilomicrons.

*Caso alguém queira defender alguma ideia no que diz respeito a nutrição precisa, ao menos, saber esses processos de absorção.

O óleo de coco ganhou muita fama justamente pelo seu conteúdo de ácidos graxos e triglicerídeos de cadeia média (TCM).

O grande problema é que o ácido graxo “responsável” por esses efeitos no óleo de coco é o ácido láurico, um ácido graxo com 12 carbonos que não se comporta exatamente como um TCM como o ácido caprilico (8 carbonos) e ácido cáprico (10 carbonos), portanto, não se pode atribuir ao óleo de coco as mesmas características dos TCM’s com 8 e 10 carbonos.

Além disso os TCM’s são altamente solúveis em PH fisiológico e com baixo peso molecular, o que facilita a ação da lipase pancreática e sua hidrólise (quebra para posterior degradação), contudo, essa solubilidade aumentada é observada em cadeias com 10 carbonos, o ácido láurico, o TCM do óleo de coco, tem 12.

Triglicerídeos são formados por ácidos graxos e também podem ser classificados de acordo com o número de carbonos e grau de saturação.

 

Além dos ácidos graxos, os triglicerídeos também podem ser classificados por tamanho de cadeia carbônica. Os triglicerídeos de cadeia média se situam entre 24 carbonos e 30 carbonos e apenas 3% dos triglicerídeos do óleo de coco apresentam esse tamanho.

Novamente, não podemos pegar os resultados dos TCM’s e transporta-los para o óleo de coco, porque ele não tem o mesmo comportamento devido ao tamanho de suas cadeias carbônicas. Independentemente da crença, não tem com mudar as características que dependem de uma estrutura molecular.

Pronto, respondemos de maneira resumida o que é o óleo de coco e quais suas características.

Vantagens do uso do óleo de coco

As vantagens do uso óleo de coco incluem a sua resistência a oxidação e polimerização, fazendo dele um óleo estável para cozinhar, principalmente em frituras rasas de uso único, mas, não para frituras em imersão de uso contínuo, pois tem baixo ponto de fumaça e pode gerar compostos carcinogênicos e tóxicos.

Óleo de coco e saúde

Alega-se que o óleo de coco pode proteger contra doenças cardiovasculares e promover alterações positivas no perfil lipídico, como diminuição do colesterol LDL e triglicerídeos da corrente sanguínea e aumento no HDL (colesterol “bom”). Contudo, essas informações provem de estudos em tribos que consumem altas quantidades da gordura do coco e apresentam baixa incidência de doenças cardiovasculares.

Devemos considerar a alimentação deste tipo de tribo costuma ser rica em fibras, vegetais e frutas, ou seja, o efeito protetivo e benéfico não pode ser só atribuído a gordura do coco. Além disso, a gordura do coco consumida não é consumida na forma do óleo refinado, como encontramos no mercado.

Estudos experimentais, onde alimentam-se os participantes com óleo de coco e outras gorduras para comparação entre seus efeitos não mostram resultados positivos ocasionados pelo consumo de óleo de coco em substituição a outras gorduras.

Alguns estudos mostram sim, aumentos de HDL, contudo, esses aumentos são acompanhados por aumentos de LDL (colesterol “ruim”). Os resultados desse tipo de estudos apontam na direção contrária, parece que substituir as gorduras saturadas (do óleo de coco), por óleos vegetais insaturados (como os de soja, canola ou milho) pode ser benéfico para o perfil lipídico e a saúde cardiovascular.

PARE! e pense …

Seriam esses resultados uma conspiração contra o óleo de coco patrocinado pela indústria de óleos vegetais? Sinto por quem pensa que todo tipo de evidencia contra algo em que acredita seja patrocinado por algum outro lado, algumas vezes pode até ser, mas é muito menos frequente do que pensam (de longe).

Realizar estudos não é uma coisa barata e não são coisas que você faz de um dia para o outro.

Vamos amarrar assunto por enquanto

As evidencias atuais mostram que não existe benefício em trocar as outras gorduras por óleo de coco, do contrário, a indicação é limitar a ingestão excessiva de gordura saturada, substituindo por óleos insaturados.

Muitas vezes as pessoas melhoram a saúde com o consumo de óleo de coco porque mudam toda a alimentação e adotam um padrão mais saudável e muitas vezes não param para pensar nisso.

O problema não é só o tipo de gordura que se usa, isso é extremamente simplista, o contexto alimentar é muito mais importante.

O óleo de coco pode sim ser usado, caso seja feito de maneira coerente.

Refogar cebola, alho, fazer ovo e afins no óleo de coco me parece no mínimo sem sentido, a não ser que você adore ovo com gosto de coco (?).

Toda vez que alguém tentar te empurrar um produto em uma embalagem verde alegando 1000 benefícios lembre-se que muitas vezes, elas não têm fundamento nenhum e quando tem, dependem do contexto alimentar como um todo.

Referência:

EYRES, Laurence et al. Coconut oil consumption and cardiovascular risk factors in humans. Nutrition reviews, v. 74, n. 4, p. 267-280, 2016.