OBESIDADE E SOBREPESO: Complicações para a saúde

Tirando o foco de discussões a respeito de padrões de beleza e aceitação social, o excesso de acúmulo de gordura – obesidade/ sobrepeso no meio científico é encarada como doença, mas, o que torna a essa situação uma condição não saudável?

Para embasar a discussão iremos utilizar um artigo dos autores HEYMSFIELD,  e WADDEN,   publicado no New England Journal of Medicine.

A capacidade das células adiposas se expandirem (aumentarem de tamanho) de maneira saudável é limitada, contudo o excesso de calorias advindos da alimentação necessitam continuar sendo armazenados e a deposição de gordura começa a ser redistribuída para outras localidades (conhecido como deposição de gordura ectópica).

Os maiores problemas com o acúmulo excessivo de gordura envolvem as ações do tecido adiposo enquanto célula em expansão não saudável e a deposição em lugares que podem alterar as funções de determinados tecidos e por consequência de determinados órgãos. Vamos dividir as desordens em duas categorias para facilitar o entendimento: fatores mecânicos (envolvem a pressão que o tecido adiposo pode exercer em algumas estruturas), alterações metabólicas e desordens psiquiátricas.

Fatores mecânicos

O acúmulo de gordura em localidades próximas ao rim, podem causar compressão do tecido contribuindo para a hipertensão arterial sistêmica.

O aumento da deposição de gordura intra-abdominal pode causar aumento de pressão na região o que favorece o desenvolvimento de doenças estomacais e esofágicas, em alguns casos esta situação está relacionada ao desenvolvimento de câncer no local.

Alterações metabólicas

O constante remodelamento do tecido adiposo em expansão submete a célula a diversas reações, entre elas, a apoptose celular e alterações nos componentes extracelulares causam recrutamento e diferenciação de células imunes as quais liberam várias substancias inflamatórias, fator que contribui para a inflamação crônica de baixo grau em indivíduos obesos. Este quadro de inflamação tem sido um dos responsáveis pela resistência à insulina associados a obesidade. A resistência a insulina de maneira sustentada pode levar ao desenvolvimento de diabetes tipo II.

Nas células hepáticas o lipossoma (estrutura celular) aumenta de tamanho criando vacúolos, que posteriormente evoluem para um quadro definido como esteatose hepática, nesta situação as funções do fígado são extremamente prejudicadas.

O aumento do tamanho da célula adiposa também é acompanhado de aumento da liberação de triglicerídeos para a corrente sanguínea, este fator pode contribuir tanto para doenças cardiovasculares (potencializado por conta da inflamação) quanto para resistência à insulina (citada acima), além do acumulo de produtos decorrentes da liberação exagerada de triglicerídeos causar toxidade (lipotoxidade).

O acúmulo de gordura em localidades próximas ao rim, podem causar compressão do tecido contribuindo para a hipertensão arterial sistêmica.

O aumento da deposição de gordura intra-abdominal pode causar aumento de pressão na região o que favorece o desenvolvimento de doenças estomacais e esofágicas.

Desordens psiquiátricas:

A obesidade é associada com diversos transtornos psicológicos, como depressão, ansiedade, compulsão alimentar, bulimia. Depressão e ansiedade particularmente apresentam maior incidência em indivíduos obesos quando comparado a indivíduos não obesos. Dependendo da ordem de ocorrência os fatores podem se sobrepor em um looping, onde as doenças psiquiátricas podem contribuir para a obesidade e obesidade contribui para o desenvolvimento de doenças psiquiátricas.

 

Diante destas considerações as pesquisas têm se concentrado em diversas maneiras de diminuir a epidemia de obesidade, pois as complicações decorrentes geram altos custos além de prejudicar a qualidade de vida dos próprios indivíduos e das pessoas próximas. Obviamente que um indivíduo obeso ou acima do peso não irá desenvolver todas as complicações e muitas vezes pode ser considerado “saudável” – o que embasa os discursos de auto aceitação – pois se não há doença as críticas seriam pautadas no preconceito. O problema é que mesmo nessa situação de obesidade “metabolicamente saudável” a taxa de incidência e de mortalidade por doenças cardiovasculares ainda é maior na população obesa comparado a população não obesa.

A auto aceitação e satisfação pessoal são muito importantes para a saúde psicológica de qualquer indivíduo, contudo, nos casos de obesidade ou sobrepeso a auto aceitação não deve ser utilizada como argumento de permissividade e encorajamento a manutenção de uma condição potencialmente prejudicial à saúde. Você deve se aceitar como for, mas, deve reconhecer as situações e lidar com elas de maneira coerente.

 

HEYMSFIELD, Steven B.; WADDEN, Thomas A. Mechanisms, pathophysiology, and management of obesity. New England Journal of Medicine, v. 376, n. 3, p. 254-266, 2017.