DIETA PALEO, É BOA OU NÃO?

A dieta paleo (fazendo referência ao período histórico denominado paleolítico) tem como característica a limitação da ingestão de alguns alimentos enquanto busca um padrão similar ao observado nesse período histórico. Esse padrão baseia-se na alimentação dos caçadores-coletores onde os principais componentes são:  carnes, castanhas e oleaginosas, vegetais, frutas e alguns tipos de grãos.

Como o processamento de grãos na época era mínimo a ingestão de alimentos como pães, massas e alguns grãos refinados deve ser mínima (se houver).

Para os defensores desse padrão alimentar existem alguns benefícios em seguir tal tipo de dieta, tanto para a saúde quanto para a composição corporal, contudo, antes que algum tipo de fanatismo seja levantado e o assunto comece a envolver crença, é necessário esclarecer alguns pontos importantes.

O contexto

O primeiro deles e talvez o mais importante, diz respeito ao período que dá nome a dieta, o período paleolítico. Se é defendido que o padrão alimentar é embasado nesse período de tempo, é necessário entender o que se tem de informação a respeito do contexto histórico e da vida do homem nessa época.

Grande parte das análises históricas devem ser feitas dentro de um contexto e não apenas transportando informações e inserindo-as em outras realidades, assim como acontece em alguns casos com a dieta Paleo.

O período paleolítico aconteceu antes do desenvolvimento da escrita e por isso algumas vezes é chamada como pré-histórico, com data aproximada que envolve 12.000 a.C a 7000 a.C. Durante o período paleolítico os humanos viviam a base de coleta e caça, por conta disso, dependiam do que o ambiente podia oferecer no mom

ento. Quando os recursos de um ambiente eram consumidos havia necessidade de busca-los em outros lugares.

Tais fatores faziam com que a variedade alimentar fosse constante devido a necessidade de mudança de local. Além disso, não era possível colher alimentos (o que só foi possível depois da revolução agrícola do período neolítico) dessa maneira, os vegetais, animais, tubérculos, frutas e etc eram coletados de acordo com a disponibilidade e consumidos.

A naturalidade

Com base nessas considerações, os defensores da dieta paleo argumentam sobre a “naturalidade” da alimentação e que isso seria mais benéfico uma vez que é assim que a espécie se desenvolveu. Além disso quando se associam imagens de humanos neste período, não são observados casos de sobrepeso e obesidade.

Contudo, o conceito de natural tem que ser levado dentro de um contexto e é extremamente complicado definir natural e antinatural, sendo que a raça humana passou por inúmeras transformações. Algumas práticas atuais podem se encaixar dentro do “antinatural” se você tiver como base a origem da espécie, mas, não são necessariamente ruins, uma vez que melhoram a saúde e expectativa de vida dos indivíduos (vacinas são um ótimo exemplo).

A dificuldade em se observar pessoas com sobrepeso não se deve somente ao que ingeriam e também ao estilo de vida, o qual era muito ativo. Como os humanos eram nômades necessitavam percorrer grandes distancias, além de escalar e retirar os alimentos, tarefas que demandam alto trabalho muscular e aumentam muito o gasto energético.

A história não é fixa

Vale lembrar também que a história pode ser redefinida de acordo com as descobertas recentes e dessa maneira mais informações são adicionadas, aumentando o entendimento sobre o período. Com relação ao período paleolítico, descobertas recentes apontam que existem evidencias da confecção de pães, (descobertas feitas por grupos de historiadores confiáveis), contudo, tal alimento é retirado da dieta paleo, ou seja, devido a interpretações de que por não haver plantio e colheita, não seria possível confeccioná-los.

Então, precisamos tomar cuidado ao engessar definições e se tratando de defesa com base em conhecimento, nunca devemos esquecer a principal característica da ciência: o conhecimento não é definitivo e pode mudar de acordo com novos achados.

Dieta Paleo: composição e efeitos para a saúde

Algumas recomendações da dieta Paleo podem ser pertinentes, como aumento no consmo de frutas e vegetais e diminuição no consumo de alimentos processados, contudo, restrções de alimentos como grãos, laticinios e cereais não fazem sentido do ponto de vista científico da nutrição.

Toda essa introdução e contextualização é necessária para que não cometamos erros básicos e nem acabemos caindo no erro de cultuar religiosamente esse tipo de prática, que a qualquer momento pode sofrer modificações.

Alguns dos alimentos consumidos na dieta paleo atualmente não eram consumidos no período paleolítico, carnes defumadas e embaladas por exemplo, não faziam parte das práticas humanas. O próprio consumo de carnes, da maneira como é feito atualmente é na verdade mais parecido com o do período neolítico, após a agricultura e domesticação do gado, onde era possível criá-los em maior escala para consumo.

Com relação a saúde, é difícil discutir, pois a expectativa de vida era muito menor do que a atual, mas, você pode argumentar “claro, eles não tinham todos esses avanços da medicina”, contudo, tais avanços podem ser encaixados dentro do antinatural, pois envolvem a manipulação de compostos de ocorrência natural para se obter doses específicas que não são encontradas nos compostos naturais, com a finalidade de satisfazer um propósito, no caso, o tratamento de uma doença.

O mesmo raciocínio pode se aplicar a confecção de alimentos como pães e massas, pois seus ingredientes ocorrem de maneira natural separados, sendo posteriormente processados e modificados para se obter as doses (quantidades) necessárias para satisfazer a fabricação. Não é porque não é “natural” que necessariamente será ruim.

O intuito aqui é apenas aumentar a consciência sobre o tema, não ofender quem prática a dieta paleo, contudo, precisamos ter consciência que nem sempre as preferências individuais são as melhores para todo mundo e que muitas vezes a defesa tem pontos falhos.

Ciência sobre a dieta paleo

Mas, a ciência já testou diretamente os efeitos da dieta paleo sobre a composição corporal?

Sim e vamos debater um pouco sobre.

Um estudo muito interessante buscou simular os efeitos do padrão alimentar dos caçadores coletores e para isso enviou 4 homens em uma “expedição” no Alasca. Para a obtenção de comida era necessário coletá-la e isso envolvia deslocamentos diários.

Antes e após 12 dias de expedição foram medidos a gordura corporal, massa magra, gordura intra-hepática, perfil lipídico, gasto energético e o consumo energético dos participantes.

As imagens iustrativas do homem no eriodo paleolítco não cosutmam mostrar humanos com sobrepeso ou obeses, contudo, mais que o padrão alimentar, a quantidade de atividade física era significativamente maior, devido a necessidade da coleta de alimentos emd diferentes lugares.

Como resultado foi observado que houve diminuição na gordura corporal, gordura intra-hepática e tendência a melhora no perfil lipídico. A massa muscular foi mantida, principalmente devido aos altos níveis de atividade física (COKER, et al., 2018).

Contudo, o maior responsável pelos resultados observados não foram exatamente os alimentos ingeridos e sim o grande déficit calórico gerado pela baixa ingestão de calorias e o alto gasto. Dessa maneira os autores concluem que grande parte dos possíveis benefícios observados estão na combinação entre aumento no gasto e diminuição da ingestão de calorias.

Nesse sentido, muitas pessoas acabam não percebendo que ao aderir outro padrão alimentar acabam diminuindo a ingestão de calorias, pois, cortam alguns alimentos calóricos e passam a ter um padrão mais saudável.

Outro estudo comparou os resultados de 8 semanas de dieta paleo combinada com exercício, somente dieta, exercício e outro padrão alimentar saudável (chamado my plate) e somente o my plate. O protocolo de exercícios envolveu 4 sessões semanais, duas de treinamento aeróbico e duas resistido (musculação).

Como resultado foi mostrado que ambos os grupos tiveram respostas similares na composição corporal, contudo, para alguns indicadores de performance do treinamento, o grupo paleo mostrou resultados menores (COLLIN et al., 2018).

Isso mostra que ambas podem ser utilizadas com a obtenção de resultados similares para a composição corporal, sem superioridade para nenhum dos lados quando as condições de balanço energético são similares. Além disso falar de superioridade de algum padrão alimentar envolve cautela, por isso, devemos olhar para os princípios básicos e encaixá-los dentro dos padrões.

Uma vez que os padrões alimentares podem envolver aspectos culturais não se pode querer modificar abruptamente algo construído ao longo de muitos anos e muitas vezes as recomendações de algumas dietas não levam esse fator em consideração.

Conclusão:

A dieta paleo pode ser utilizada desde que possa ser mantida a longo prazo e se encaixe nas preferências individuais. Assim como qualquer outro tipo de dieta não existe nenhuma mágica por trás dos resultados e grande parte dos efeitos benéficos se dão pela quantidade de proteínas, fibras e o balanço energético.

Existem outros pontos que são defendidos por praticantes da dieta paleo, contudo para discutir todos eles o post ficaria muito extenso.

Referências:

COKER, Robert H. et al. The energy requirements and metabolic benefits of wilderness hunting in Alaska. Physiological reports, v. 6, n. 21, p. e13925, 2018.

POPP, COLLIN J. et al. The Effectiveness of MyPlate and Paleolithic-based Diet Recommendations, both with and without Exercise, on Aerobic Fitness, Muscular Strength and Anaerobic Power in Young Women: A Randomized Clinical Trial. International Journal of Exercise Science, v. 11, n. 2, p. 921, 2018.